Os agentes comunitários de saúde exercem papel fundamental para o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Criando pontes entre as unidades de saúde e a população, esses profissionais fazem o acompanhamento dos cidadãos, contribuem com o rastreamento dos pacientes e, muitas vezes, são a porta de acesso para os mais diversos problemas de saúde.
Mesmo antes da criação do SUS, já existiam experiências regionais com atuação de agentes de saúde. Mas foi apenas com a criação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PaCs), em 1991, que foi institucionalizada a participação dos agentes em todo o território nacional, com foco em educação e prevenção. A regulamentação como profissão só veio em 2002.
De lá para cá, hoje já somam mais de 400 mil agentes comunitários de saúde (ACS) e agentes de combate às endemias (ACE). Vistos pela população de forma horizontal, por se tratar muitas vezes de uma pessoa do próprio bairro e com longos períodos de atuação, conseguem em conversas e visitas domiciliares conquistar a confiança e se aproximar das famílias. Em janeiro de 2026, a cobertura atingiu 66,75% da população, de acordo o Ministério da Saúde.
A pasta tem atuado para fortalecer o papel dos agentes. Em 2023, instituiu o programa Mais Saúde com Agente, com o objetivo de ampliar a oferta dos cursos técnicos. Com isso, os profissionais passam a medir a pressão arterial e a glicemia, entre outras atribuições, o que torna mais eficiente sua atuação. Até dezembro de 2025, 109 mil agentes concluíram a formação.
A categoria também foi reconhecida nos últimos anos como “profissional da saúde”. Agora, luta para conquistar a aposentadoria especial, diferenciando a idade e o tempo mínimo de trabalho. O Senado aprovou um projeto de lei que definiu prazo mínimo de 20 anos de exercício na função, com idade mínima de 52 anos para homens e 50 anos para mulheres. O texto aguarda análise da Câmara dos Deputados.
Para especialistas, o papel do agente de saúde já foi expandido até o limite possível sem interferir nas obrigações de outras categorias, mas ele pode ser aperfeiçoado. Mesmo com tecnologias e formações, o futuro da profissão deve seguir com um papel de acompanhamento da população e avaliação corpo a corpo, orientando sobre higiene, vacinação, alimentação e uso correto de medicamentos.
O grande desafio está em o Ministério da Saúde definir as expectativas sobre o profissional e olhar para além das visitas domiciliares. “É preciso determinar muito bem o que queremos e esperamos do trabalho do agente comunitário. Independentemente do escopo, refinar o papel é importante e há espaço para ampliação desse escopo com responsabilidade, ferramentas e treinamento necessário. O Brasil tem se movido nessa direção”, avalia João Abreu, cofundador e diretor-executivo da ImpulsoGov.
A voz do agente
Há 17 anos na rede de saúde de Bragança Paulista, a agente comunitária Maria da Graça Barbosa atua com 850 pessoas, divididas em 290 famílias. Ela foi uma dos 95 Agentes Comunitários do município que concluíram o curso técnico neste ano e irão expandir sua atuação na atenção primária.
“Tenho total autonomia de falar para o enfermeiro ou médico o que está acontecendo dentro do meu território. Quando identificamos um risco levamos para discutir com a equipe e buscamos ajudar a pessoa. Se precisar de um psicólogo ou uma consulta urgente, encaminhamos”, explica a agente.
Segundo ela, a principal reclamação da população não está na atuação do agente comunitário, mas neste encaminhamento. A demora para realização de consultas com médicos especialistas no SUS é o grande desafio. Apesar de o Ministério da Saúde estar desenvolvendo programas neste sentido, a entrega ainda está aquém das necessidades do país.
Pelo tempo atuando, Maria da Graça reforça que tem acesso à população e consegue levar os pacientes para a unidade quando preciso. No entanto, enfrenta dificuldades com relação à carga emocional da profissão. “Nos envolvemos com cada família e vemos de perto a sua dor. Com o tempo, ganhamos confiança da população. Escutar todo dia relatos difíceis e seguir em frente pesa o coração”, conta Maria da Graça, que atua com população carente da região.
É o que reforça Angélica Ferreira Fonseca, pesquisadora, integrante da Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e coordenadora do Fórum de Editores de Saúde Coletiva da Abrasco, que aponta que a atuação na linha de frente traz sobrecargas emocionais aos agentes. “Estão em contato contínuo com populações vulnerabilizadas, em um contexto social marcado pela precariedade. Trata‑se de uma rotina atravessada por problemas associados a expressões muito concretas das determinações sociais do processo de sofrimento e adoecimento”, observa.
Gestão e desafios
O financiamento da atenção primária no Brasil, no âmbito da saúde pública, está associado ao cumprimento de indicadores de saúde. Nesse sentido, os municípios precisam atender às metas propostas pelo Ministério da Saúde para receber incentivos financeiros e recursos para essa rede.
Os agentes comunitários de saúde, junto às equipes de saúde da família, exercem papel principal nesse sentido, mapeando problemas de saúde da população. Os indicadores tratam sobre cuidados com diabetes e hipertensão, cuidado da gestante e do puerpério, prevenção do câncer em mulher, atenção à pessoa idosa e desenvolvimento infantil, entre outros itens. Também há atenção com cuidados odontológicos.
Além de focar em indicadores, são os agentes que muitas vezes ensinam às famílias cuidados básicos, como a se alimentar bem, a amamentar e a escovar os dentes. São eles que vão identificar vulnerabilidades sociais da população. Diferentes estudos apontam que há redução da mortalidade e melhora nos indicadores de saúde em regiões onde há atuação da Estratégia Saúde da Família (ESF) e dos agentes de saúde, principalmente associados a outros programas do governo, como de transferência de renda.
“Temos indicadores a serem atingidos que refletem a importância do agente comunitário no acompanhamento das pessoas, principalmente crianças, gestantes, pessoas idosas e com problemas de saúde mental, álcool e drogas. E para todo esse acompanhamento há apoio da equipe naquilo que precisa atuar junto à família”, afirma Carmem Guariente, secretária municipal de Saúde de Bragança Paulista e 2ª vice-presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (Cosems/SP).
Ela explica que o governo federal custeia o salário dos agentes comunitários, mas o município é responsável pelos encargos, como férias, adicional de insalubridade, transporte e alimentação, o que corresponde a cerca de 35% dos valores totais. Apesar de entender que há espaço para expansão, ampliando o número de profissionais, Carmem avalia que o orçamento é limitado, e que o caminho é fortalecer o papel do agente.
Estimativas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) apontavam em 2023 que caso o Brasil quisesse alcançar 100% de cobertura da Estratégia Saúde da Família, seriam necessárias 25,6 mil novas equipes. Isso demandaria até 236,9 mil profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares e agentes comunitários de saúde, ao custo de R$ 17,1 bilhões ao ano.
De acordo com Fonseca, da Abrasco, existem outros desafios que envolvem a profissão. O reconhecimento por parte das chefias é uma das reclamações da categoria. Segundo Carmem Guariente, os agentes são unidos e mobilizados, e em alguns casos ocorrem tensionamentos com as secretarias sobre os limites da profissão.
“O que mais queremos é o agente comunitário nas equipes, realizando o seu trabalho, tendo vínculo com a comunidade, sendo reconhecido e fazendo com que a população tenha uma qualidade de vida cada vez melhor. É esse acompanhamento do dia a dia que faz com que as pessoas possam cuidar melhor da sua saúde”, afirma Guariente.
Uma revisão publicada em 2023 aponta que países de baixa e média renda são os principais a utilizarem os agentes de saúde. No entanto, inspirado no SUS, o Reino Unido começou a inserir agentes no National Health System (NHS). Entre as famílias cobertas, houve um aumento de 40% no uso de serviços preventivos, de 47% na vacinação e de 82% na realização de exames de rastreamento.
Limitações e acompanhamentos
O acompanhamento das famílias é feito através de visitas domiciliares e comunicação por telefone ou até mesmo mensagens via WhatsApp. Prefeituras e Distrito Federal têm distribuído tablets para os agentes, com o intuito de facilitar a coleta de informações e a identificação dos endereços. A expectativa é que futuramente possam acessar prontuários e sistemas nos aparelhos.
No entanto, ainda é preciso classificar quais pessoas necessitam de mais atenção, de acordo com os fatores de riscos e vulnerabilidade. Para isso, há uma demanda por ferramentas de apoio. João Abreu, da ImpulsoGov, aponta que o acompanhamento das famílias muitas vezes é feito através de anotações em cadernos e planilhas de Excel. Apesar de existir um sistema do próprio Ministério da Saúde, a visualização não permite uma análise geral das informações.
“Desenvolvemos um software chamado Impulso Previne que consiste justamente em organizar os dados digitalizados que o SUS já possui na atenção primária Brasil afora, para o agente comunitário de saúde. Isso permite que ele observe quais pacientes no seu território estão com vacina ou consulta pré-natal atrasadas”, afirma Abreu.
Ele reforça que a atuação dos agentes comunitários é referência para o mundo, sempre um pilar essencial do SUS. Com um grande contingente de profissionais, serve de exemplo para outros países que buscam fortalecer a saúde pública. Em sua visão, esses profissionais poderiam contribuir com novos desafios da saúde, como o acolhimento a pessoas com condições ligadas à saúde mental.
“A única solução para o SUS conseguir estar preparado para a demanda de saúde mental no Brasil passa pelo agente comunitário de saúde, pelo menos para a triagem. Diante de um sintoma leve, moderado ou grave de depressão ou de ansiedade, como ele consegue acolher? Não vamos ter o volume de psiquiatras suficiente para essas condições”, observa ele.
Angélica Ferreira Fonseca, da Abrasco, também observa que é fundamental que as políticas de saúde e de gestão do trabalho reconheçam os agentes de saúde como integrantes efetivos das equipes de atenção primária. Segundo ela, é preciso que o processo de trabalho seja pensado e planejado de forma crítica e coletiva.
“Devemos questionar, por exemplo, até que ponto uma equipe consegue desenvolver as ações que considera necessárias na unidade e no território quando conta apenas com dois ou três ACS — uma realidade bastante presente. Esse questionamento precisa ser feito de forma ascendente: o que a equipe, a unidade, o território, o município e, em última instância, a própria APS perdem, e poderiam ganhar em potência, com o trabalho integrado e fortalecido desses profissionais?”, avalia a pesquisadora.
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