Irã e Estados Unidos retomam a guerra

O frágil “memorando de entendimento” assinado semanas atrás entre Estados Unidos e Irã descarrilou de vez nos últimos dias. Na quarta-feira passada, o presidente norte-americano, Donald Trump, havia dito durante a cúpula da Otan que era “perda de tempo negociar com eles [iranianos]”; àquela altura, os dois países já vinham trocando agressões na região estratégica do Estreito de Ormuz, que já tinha tomado o lugar do programa nuclear iraniano como o principal ponto de discórdia. O fim de semana também foi marcado por ataques mútuos, com a Guarda Revolucionária Iraniana anunciando um novo bloqueio da passagem marítima, o que os Estados Unidos negam.

O memorando assinado em junho, reconheça-se, era frustrante, e foi muito criticado mesmo entre aliados de Trump por entregar ao Irã muito mais do que o regime dos aiatolás fazia por merecer naquele momento. O texto prometia apenas a continuação das discussões sobre o programa nuclear do regime islâmico, do qual Teerã já havia dito que não abriria mão – a promessa de não produzir uma bomba atômica até constava do memorando, mas também já tinha sido feita no passado, o que não impediu os aiatolás de seguir enriquecendo urânio a níveis muito superiores aos necessários para uso pacífico. Sanções seriam levantadas, fundos iranianos no exterior seriam descongelados, enquanto não se dizia absolutamente nada sobre o financiamento iraniano ao terrorismo internacional, ou sobre o reconhecimento do direito de Israel à existência.

O memorando foi muito criticado mesmo entre aliados de Trump por entregar ao Irã muito mais do que o regime dos aiatolás fazia por merecer naquele momento

As concessões norte-americanas, as pouquíssimas contrapartidas iranianas, e a “descoberta”, por parte de Teerã, de que poderia usar o Estreito de Ormuz para levar o caos ao mercado internacional de energia podem ter sido vistas pelos iranianos como uma combinação propícia à retomada das hostilidades – até porque os norte-americanos não parecem interessados em provocar uma troca de regime, ao contrário do que havia insinuado Trump nas primeiras horas após o primeiro ataque ao Irã, no fim de fevereiro. Imagens de satélite dão a entender que os iranianos também aproveitaram o tempo passado desde a assinatura do memorando para iniciar a reconstrução de ao menos uma de suas instalações nucleares.