• Home
  • Opinião
  • Leão XIV aposta na afirmação do humano em vez do medo da máquina

Leão XIV aposta na afirmação do humano em vez do medo da máquina

Em 25 de maio de 2026, foi divulgada a Magnifica Humanitas, encíclica do papa Leão XIV sobre inteligência artificial. O documento foi assinado dez dias antes, no dia 15 de maio, data que marca os 135 anos da Rerum Novarum, encíclica de Leão XIII sobre a dignidade do trabalho na era industrial. A escolha do nome papal e da data de assinatura é deliberada e fica evidente no início da nova encíclica. Diante de novos tempos, Leão XIV traz uma Doutrina Social da Igreja para a IA.

Vale registrar, antes de qualquer análise, o que torna o gesto institucionalmente relevante. Em 2026, nenhum governo ocidental e nenhuma organização multilateral produziu um documento de fôlego semelhante sobre inteligência artificial. A União Europeia tem o AI Act, que é norma regulatória e traz contingências, com um modelo baseado em riscos. Os Estados Unidos vêm operando por ordens executivas que se acumulam entre administrações. O G20 endossou uma governança pró-inovação, com mitigação de riscos e redução de assimetrias, e a ONU avançou em resoluções e diretrizes sobre IA segura.

A Magnifica Humanitas é uma afirmação sobre o que os algoritmos não conseguem substituir: consciência, liberdade, responsabilidade moral – aquilo que a tradição cristã chama de imago Dei

O Vaticano publicou uma encíclica que, ao contrário do que muitos esperavam, é uma afirmação do humano, em vez do medo da máquina. No texto da encíclica, o sumo pontífice assinala acertadamente que, diante de uma mudança de época, “se nos limitarmos às contingências, corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar, a direção do caminho”.

A Magnifica Humanitas é uma afirmação sobre o que os algoritmos não conseguem substituir: consciência, liberdade, responsabilidade moral – aquilo que a tradição cristã chama de imago Dei. A tese filosófica não foi inventada agora. Em janeiro de 2025, os Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura haviam publicado a Antiqua et Nova, nota que traçou a linha. A encíclica eleva essa linha ao grau máximo do magistério papal e ancora a discussão da IA em terreno antropológico, e não regulatório.

Outra questão que merece atenção é a escolha de interlocutores feita pelo Vaticano no processo. Christopher Olah, cofundador da Anthropic e pesquisador de interpretabilidade de modelos de linguagem, foi convidado a falar no Salão Sinodal, ao lado de cardeais. O Vaticano chamou quem constrói sistemas de redes neurais e tenta entendê-los por dentro. A escolha é, ela própria, uma declaração de método: para discutir IA com seriedade, é preciso falar com quem a desenvolve.

O paralelo com a Rerum Novarum, lançada em 1891, ajuda a entender o que está em jogo. A encíclica de Leão XIII funcionou, do ponto de vista de impacto histórico, porque não se limitou a defender a dignidade do trabalho em termos abstratos. Foi o ponto de partida da Doutrina Social da Igreja. A Magnifica Humanitas se apresenta com uma proposta semelhante: oferecer um quadro filosófico que sirva de referência por décadas, em um momento em que a sociedade ainda está aprendendo a formular as perguntas certas sobre IA.

VEJA TAMBÉM:

  • Marcio Antonio Campos: “Magnifica humanitas”: verdade, trabalho e liberdade têm de ser preservadas na era da IA
  • Mensagem do papa Leão XIV na Magnifica Humanitas é uma mensagem que precisamos ouvir

A título de comparação, o debate público brasileiro sobre o tema tem operado em duas frentes que pouco conversam entre si. De um lado, o jurídico-regulatório: projetos de lei no Congresso, resoluções do TSE, decisões de tribunais. De outro, o tecnológico-econômico: investimento, startups, produtividade, foco em ferramentas. A camada antropológica, que pergunta o que a tecnologia diz sobre o humano e o que o humano ainda diz sobre si diante da tecnologia, fica em segundo plano. A encíclica papal devolve essa camada ao centro da discussão.

Seu efeito é cultural, lento e indireto. Há quem diga que o que falta hoje é ação executiva e norma vinculante, não mais texto filosófico. O problema é que apenas a ação executiva sem o fundamento filosófico-antropológico central tende a virar reação a crises pontuais, sem tanta coerência ao longo do tempo. Foi o que aconteceu, com algumas variações, com a primeira onda de regulação de redes sociais no mundo.

Em meio à pressa regulatória e à fadiga das instituições políticas para articular posições substantivas, foi uma instituição de mais de dois mil anos que ofereceu uma tentativa séria de responder à pergunta antropológica que a IA recoloca: vamos construir uma torre de Babel ou reedificar as muralhas de Jerusalém?

Felipe Rodrigues é cientista político, jornalista e mestre em Ciência Política, pesquisador de IA. É professor de pós-graduação em Comunicação Política e Marketing Eleitoral no IDP.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Defesa Civil e comunidade da região norte alinham Núcleo de Prevenção – Prefeitura Municipal de Ubatuba

A Defesa Civil de Ubatuba iniciou mais uma etapa das ações de prevenção e preparação…

Porsche 909 Bergspyder usava tanque de combustível esférico para eliminar a bomba

Ao lado do motor do Porsche 909 Bergspyder havia uma esfera de titânio do tamanho…

Plano de Dados Abertos – Ministério da Saúde

Plano de Dados Abertos | 2026-2028 Publicado em 31/08/2026 17h44 Atualizado em 31/08/2026 17h45 Plano…