A chegada de novas terapias, muitas vezes de alto custo, tem levado sistemas de saúde em todo o mundo a buscar mecanismos inovadores para ampliar acesso. No Brasil, um dos desafios consiste em orquestrar diferentes etapas, da aprovação regulatória à implementação na rede, sem comprometer a sustentabilidade orçamentária. Na visão de Michel Conte, diretor de acesso da Novartis, mais do que olhar para o custo isolado das novas terapias, é importante evoluir para modelos baseados em valor que consigam capturar os diferentes impactos das terapias, como desfechos, qualidade de vida, eficiência assistencial e ganhos para o sistema como um todo.
Em entrevista ao Futuro da Saúde, Conte analisa o cenário de acesso do sistema de saúde brasileiro e fala sobre o papel de parcerias entre governos, indústria farmacêutica e outros entes nessa agenda. Segundo ele, o país conta com um ecossistema técnico cada vez mais qualificado e tem avançado em eficiência regulatória. Contudo, os intervalos entre a aprovação e o acesso ainda são significativos. “Isso reflete a complexidade do sistema e a necessidade de integrar melhor etapas como incorporação, financiamento e implementação”.
Para ele, as barreiras passam ainda por fortalecer o uso de dados para acompanhar a jornada do paciente, investir em diagnóstico e navegação do paciente e fortalecer parcerias entre governo e indústria. “A grande mudança é tratar acesso como disciplina prioritária, com governança, métricas, planejamento e visão de longo prazo. Quando acesso deixa de ser uma ação pontual e passa a ser parte da arquitetura do sistema, conseguimos avançar com mais previsibilidade, equidade e impacto para o paciente”, afirma.
Na conversa, o executivo compartilhou a experiência do acordo de compartilhamento de risco feito entre Novartis e governo para disponibilização do Zolgensma. Segundo ele, o modelo pode ser um instrumento interessante para avançar em acesso, desde que inserido em um contexto cuidadosamente avaliado. “O ponto central é que o modelo precisa estar conectado a um problema concreto de acesso. Não se trata de replicar uma fórmula, mas de desenhar soluções a partir da jornada do paciente, das necessidades do pagador e das evidências disponíveis”.
Leia a entrevista completa:
O acesso à saúde envolve diferentes etapas, da inovação à efetiva disponibilidade de uma terapia ou serviço. Na sua avaliação, quais são os principais gargalos hoje no país?
Michel Conte – O acesso à saúde no Brasil evoluiu nos últimos anos, especialmente na incorporação de novas tecnologias. Ao mesmo tempo, ainda existem desafios para que esse avanço se traduza de forma prática na chegada da terapia ao paciente. Parte disso está na própria complexidade da jornada, que envolve diferentes etapas, da aprovação regulatória à implementação na rede, e que precisam estar bem coordenadas para que o acesso aconteça no tempo adequado. Também entram nessa equação fatores como a capacidade operacional do sistema, incluindo diagnóstico, organização da rede de cuidado, estrutura dos serviços e treinamentos das equipes. A disponibilidade de dados para acompanhar a jornada do paciente é outro ponto relevante, já que permite entender como as políticas públicas estão se traduzindo em acesso na prática. Além disso, a sustentabilidade do financiamento segue como um tema central, especialmente diante de estruturas orçamentárias diversas e do avanço de terapias inovadoras. Isso exige modelos cada vez mais alinhados ao valor que essas tecnologias entregam, para garantir que o paciente certo receba a terapia certa, no momento certo, com acompanhamento adequado e previsibilidade para o sistema.
Quando se olha para SUS e saúde suplementar, os gargalos de acesso são os mesmos ou completamente diferentes?
Michel Conte – Eles têm pontos em comum, mas se manifestam de formas diferentes. Tanto no SUS quanto na saúde suplementar, o desafio central é levar a inovação científica a quem precisa dela, mantendo a sustentabilidade. A diferença está nos mecanismos de decisão, financiamento e implementação. No SUS, o gargalo costuma estar mais ligado à escala, ao orçamento público, à regionalização do cuidado, à logística e à capacidade de implementação em um país continental. Além do processo de incorporação em si, é preciso definir financiamento adequado, organizar a rede, preparar serviços e acompanhar se o tratamento está chegando ao paciente. Na saúde suplementar, os desafios passam por previsibilidade de cobertura, gestão de sinistralidade, integração entre bases de dados de operadoras distintas, fragmentação da jornada e alinhamento entre operadoras, prestadores, hospitais, médicos e indústria. Muitas vezes, existe cobertura formal, mas a experiência do paciente ainda pode ser marcada por barreiras administrativas e pela complexidade de navegar entre etapas do cuidado, como a coordenação entre diferentes serviços. Em ambos os casos, precisamos evoluir para modelos mais baseados em valor. Isso significa olhar menos para o custo isolado de uma tecnologia e mais para o impacto que ela gera em desfechos, qualidade de vida, eficiência assistencial e sustentabilidade do sistema. Esse avanço passa necessariamente por maior colaboração entre os diferentes atores do ecossistema e construção conjunta de soluções que viabilizem o acesso de forma mais eficiente e sustentável.
Por ser uma multinacional, quais as principais diferenças que o Brasil apresenta em relação ao acesso quando comparado a outros países? Onde estamos mais atrasados ou mais avançados?
Michel Conte – O Brasil tem características muito particulares. É um país cheio de desafios, mas também de oportunidades quando falamos de acesso à saúde. Contamos com um sistema dual que combina a escala e a universalidade do SUS, um dos maiores sistemas públicos do mundo, com um setor privado relevante e mais ágil na adoção de novas tecnologias. Essa combinação cria um ambiente com grande potencial para ampliar o acesso à inovação, ao mesmo tempo em que exige coordenação entre diferentes lógicas de funcionamento.
“Em comparação com outros países, vejo o Brasil bem-posicionado em alguns aspectos. Temos uma estrutura institucional sólida para avaliação de tecnologias, com Conitec, Anvisa, ANS e um ecossistema técnico cada vez mais qualificado. Também avançamos em eficiência regulatória, com prazos relativamente competitivos para aprovação de novas terapias”.
Ao mesmo tempo, ainda existe um intervalo importante entre a aprovação e o acesso do paciente, o que reflete a complexidade do sistema e a necessidade de integrar melhor etapas como incorporação, financiamento e implementação. Esse cenário não é exclusivo do Brasil, mas se reflete em toda a América Latina, onde os pacientes ainda levam mais tempo para acessar medicamentos inovadores já disponíveis em outras regiões. No Brasil, apesar dos avanços, ainda vemos esse desafio na prática, especialmente em áreas como oncologia. Ao mesmo tempo, a combinação de escala, capacidade técnica e abertura para inovação coloca o país em uma posição estratégica para avançar em novos modelos de acesso. Fortalecer a integração entre dados, financiamento e organização do cuidado tende a ser um caminho importante para aproximar mais rapidamente a inovação da vida dos pacientes.
Na prática, como a Novartis mede acesso? Quais indicadores ajudam a entender se um medicamento está, de fato, chegando ao paciente – e não apenas incorporado no papel?
Michel Conte – Medir acesso exige olhar para a jornada completa. Para entender se o acesso está acontecendo de fato, para além da incorporação, precisamos acompanhar tempo, cobertura, continuidade e desfecho. Na prática, alguns indicadores são fundamentais, como o tempo entre aprovação regulatória e disponibilização ao paciente, o tempo entre incorporação e início do tratamento, o número de pacientes elegíveis versus pacientes tratados, a distribuição regional do acesso e a capacidade dos serviços em diagnosticar, encaminhar e acompanhar o paciente. Sempre que possível, também buscamos acompanhar desfechos clínicos e qualidade de vida a partir de dados agregados e evidências do mundo real, que ajudam a traduzir o impacto da inovação para pacientes e para o sistema.
“Dados têm um papel central nesse processo, porque permitem entender melhor a realidade do sistema, identificar variações na jornada de cuidado e dar visibilidade a gargalos que muitas vezes não aparecem quando olhamos apenas para a incorporação. Nesse contexto, a organização e a integração de dados do ecossistema são fundamentais”.
A Novartis, em parceria com outros atores, tem apoiado iniciativas como a plataforma PRISMA, voltada ao câncer de mama no SUS, que permite uma visão mais integrada da jornada da paciente, do rastreamento aos desfechos clínicos. Ao reunir informações de diferentes regiões e serviços, esse tipo de iniciativa contribui para qualificar o debate e apoiar decisões mais informadas no sistema de saúde.
A Novartis firmou com o governo, em 2025, o primeiro acordo de compartilhamento de risco para o Zolgensma. Quais foram os principais resultados e aprendizados até o momento?
Michel Conte – O acordo de compartilhamento de risco foi um marco importante para o SUS, ao viabilizar o acesso à primeira terapia gênica no sistema público e inaugurar uma lógica de incorporação baseada em valor, com pagamento vinculado aos resultados clínicos ao longo do tempo. Do ponto de vista de resultados, neste primeiro ano de implementação já é possível observar avanços concretos. Os pacientes tratados estão sendo acompanhados por centros de referência, com coleta estruturada de dados clínicos e avaliação por um comitê técnico independente. Ao mesmo tempo, o acordo contribuiu para fortalecer a capacidade assistencial do SUS, com a estruturação de centros habilitados para terapias de maior complexidade, ampliando a preparação do sistema para lidar com inovações desse perfil. Como aprendizado, ficou claro que esse tipo de modelo depende de uma construção conjunta e de parcerias sólidas entre governo, indústria e comunidade médica. É essa colaboração que viabiliza a integração entre áreas técnicas, financiamento, acompanhamento clínico e governança de dados, além de reforçar a importância do diagnóstico precoce. No conjunto, o acordo mostra que é possível ampliar o acesso à inovação com mais previsibilidade e sustentabilidade, alinhando valor clínico e modelo de pagamento.
Há outros acordos de compartilhamento no radar? Esse tipo de modelo também pode avançar com planos de saúde e hospitais privados no Brasil?
Michel Conte – Acordos de compartilhamento de risco não devem ser vistos como uma solução única para todos os contextos, mas certamente fazem parte do futuro do acesso. Eles são especialmente relevantes quando falamos de terapias inovadoras, populações bem definidas, alto impacto clínico e necessidade de maior previsibilidade orçamentária para o pagador. Na Novartis, seguimos abertos ao diálogo com diferentes atores do sistema para avaliar modelos que façam sentido para cada realidade.
“O ponto central é que o modelo precisa estar conectado a um problema concreto de acesso. Não se trata de replicar uma fórmula, mas de desenhar soluções a partir da jornada do paciente, das necessidades do pagador e das evidências disponíveis”.
Na saúde suplementar, vemos espaço para avançar nessa agenda. Existe uma demanda crescente por soluções que conciliem acesso à inovação, qualidade assistencial e sustentabilidade, e acreditamos que modelos baseados em valor podem contribuir para esse equilíbrio. Estamos disponíveis para dialogar e cocriar, junto a operadoras, hospitais e prestadores, modelos customizados de acesso que considerem as especificidades desse segmento e ampliem o acesso dos pacientes às terapias de forma sustentável.
Além do acordo de compartilhamento de risco, há outros modelos no radar ou que estão sendo testados em outros países?
Michel Conte – Sim. Globalmente, há diferentes modelos sendo discutidos para ampliar o acesso com sustentabilidade, como pagamento por performance, contratos baseados em desfechos, financiamento parcelado e iniciativas de geração de evidência em vida real. O ponto em comum entre eles é a busca por aproximar preço, valor entregue e capacidade de pagamento, considerando não apenas o custo inicial, mas também o impacto clínico e estrutural ao longo do tempo. No Brasil, é fundamental avaliar quais dessas abordagens fazem sentido para a nossa realidade regulatória e assistencial, aproveitando aprendizados internacionais sem perder de vista as especificidades locais. No fim, o avanço do acesso passa por modelos cada vez mais customizados, que respondam às necessidades de diferentes doenças, tecnologias e sistemas de saúde.
No site da Novartis há uma área sobre estratégia de preços ao longo do ciclo de vida de um medicamento, principalmente em países com maior demanda. Que papel o preço exerce na ampliação de acesso e como funciona essa estratégia?
Michel Conte – Preço é uma parte importante da equação de acesso, mas não pode ser analisado de forma isolada. O debate precisa considerar valor clínico, investimento em pesquisa e desenvolvimento, sustentabilidade do sistema, capacidade de pagamento e impacto real para o paciente. A estratégia de preço ao longo do ciclo de vida parte do entendimento de que uma tecnologia não existe em um ponto fixo no tempo. Ao longo dos anos, mudam as evidências disponíveis, o volume de pacientes tratados, o cenário competitivo, as necessidades dos sistemas de saúde e a própria capacidade de mensurar desfechos em vida real. Na prática, isso significa buscar modelos que permitam ampliar o acesso de forma responsável, especialmente em países com grande demanda e restrições orçamentárias. O objetivo é equilibrar dois compromissos. De um lado, garantir que a inovação continue sendo viável. De outro, construir condições para que ela chegue a mais pacientes. Essa discussão precisa ser feita com transparência e diálogo.
“Preço, quando conectado à valor, pode ser uma ferramenta de ampliação de acesso. Quando analisado apenas como custo, perde-se a oportunidade de discutir o impacto mais amplo da inovação no sistema de saúde.”
Que tipo de mudança poderia destravar ainda mais o acesso no país? Quais caminhos prioritários vocês enxergam para endereçar os principais desafios de acesso no Brasil?
Michel Conte – Eu destacaria cinco caminhos prioritários. O primeiro é reduzir o tempo entre incorporação e acesso efetivo. Para isso, financiamento, protocolos, logística e organização da rede precisam caminhar juntos. O segundo é fortalecer o uso de dados. O Brasil precisa medir melhor a jornada do paciente, os tempos de espera, os desfechos e as desigualdades regionais. Sem dados, o sistema enxerga pouco e decide com menos precisão. O terceiro é ampliar modelos baseados em valor. Isso inclui acordos de compartilhamento de risco, contratos por desfecho e outras soluções que aproximem pagamento, resultado e sustentabilidade. O quarto é investir em diagnóstico e navegação do paciente. Muitas vezes, o gargalo não está apenas no medicamento, mas no caminho até ele. Diagnóstico tardio, falta de referência e dificuldade de coordenação do cuidado atrasam o tratamento e reduzem o benefício clínico. O quinto é fortalecer parcerias. Governo, indústria, prestadores, sociedades médicas, associações de pacientes e academia precisam trabalhar de forma mais integrada. Nenhum ator resolve acesso sozinho. A grande mudança é tratar acesso como disciplina prioritária, com governança, métricas, planejamento e visão de longo prazo. Quando acesso deixa de ser uma ação pontual e passa a ser parte da arquitetura do sistema, conseguimos avançar com mais previsibilidade, equidade e impacto para o paciente.