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“Nenhuma etapa está sendo pulada”, afirma Diego Clé, líder do estudo brasileiro de CAR-T

A divulgação dos resultados de um estudo brasileiro sobre terapia CAR-T Cell, na última semana, trouxe visibilidade para o potencial de uma das iniciativas mais avançadas de terapia celular desenvolvidas no país. Conduzido pelo Hemocentro de Ribeirão Preto, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto Butantan, o tratamento apresentou uma taxa de resposta de 87,5% entre os pacientes avaliados até agora, com redução significativa ou desaparecimento completo dos tumores. O estudo recebeu R$ 100 milhões em investimento do Ministério da Saúde.

Os resultados chamaram a atenção porque representam um avanço em uma área ainda marcada pela dependência de terapias importadas e de alto custo. Hoje, o tratamento CAR-T, que modifica geneticamente células de defesa do próprio paciente para que reconheçam e ataquem o câncer, pode custar cerca de US$ 500 mil por paciente no exterior. A expectativa é que uma tecnologia desenvolvida no país ajude a ampliar o acesso e torne esse tipo de tratamento mais viável para o sistema de saúde brasileiro.

Apesar da repercussão, a terapia ainda está em estudo clínico. O projeto precisa concluir o recrutamento e o acompanhamento dos participantes para, então, avançar para a avaliação regulatória da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e para as etapas que poderão levar à sua incorporação ao sistema público de saúde.

“É importante que as pessoas saibam que nenhuma fase está sendo pulada. Ainda precisamos concluir o acompanhamento dos pacientes e seguir todas as etapas necessárias para garantir que o tratamento seja eficaz e seguro”, disse ao Futuro da Saúde Diego Clé, professor de Hematologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e pesquisador principal do estudo

Iniciado em 2024, o estudo prevê a inclusão de 81 pacientes com leucemia linfoide aguda de células B ou linfoma não Hodgkin de células B que não responderam a terapias anteriores. Até o momento, a terapia já foi aplicada em 25 pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o hematologista do Hemocentro de Ribeirão Preto, o recrutamento do restante dos participantes está em andamento, e a expectativa é que os dados necessários para a avaliação regulatória estejam consolidados ao longo do próximo ano.

CAR-T nacional

A terapia CAR-T começou a ser desenvolvida nos Estados Unidos e ganhou força ao longo da década de 2010, quando passou a ser utilizada em pacientes com cânceres hematológicos avançados. O avanço da imunoterapia contra o câncer, campo do qual o CAR-T faz parte, foi reconhecido em 2018 com o Prêmio Nobel de Medicina. No Brasil, o Hemocentro de Ribeirão Preto, São Paulo, foi um dos pioneiros na área.

Os laboratórios e as linhas de pesquisa que permitiriam o desenvolvimento da terapia encontraram espaço no Centro de Terapia Celular, no Hemocentro de Ribeirão Preto, criado em 2003, a partir do financiamento da Fundação de Fomento à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O centro ajudou a formar profissionais especializados e a consolidar uma equipe multidisciplinar que hoje reúne cerca de 90 pessoas, entre biomédicos, farmacêuticos, bioquímicos, biólogos, médicos, enfermeiros e engenheiros.

O próprio hematologista realizou seu doutorado na instituição e trabalhou com terapias celulares antes mesmo do início das pesquisas com CAR-T. Foi nesse ambiente que, em 2015, a equipe iniciou o desenvolvimento de uma terapia CAR-T nacional, poucos anos após a divulgação dos primeiros resultados internacionais com a tecnologia. Inicialmente, o tratamento foi validado em laboratório e, depois, em modelos animais antes de chegar aos pacientes. “A trajetória de desenvolvimento dessa tecnologia é longa e envolveu uma dezena de pesquisadores”, conta Diego Clé.

Em 2019, a equipe tratou o primeiro paciente da América Latina com uma terapia CAR-T produzida integralmente no país. Desde então, outros pacientes receberam o tratamento em caráter compassivo, quando já não havia alternativas terapêuticas disponíveis. “Os resultados foram muito bons, semelhantes ao que se via com os produtos comercialmente disponíveis, o que nos encorajou a lançar o estudo clínico”, afirma o pesquisador.

Em que fase está o estudo

A pesquisa, chamada CARTHEDRALL, avalia pacientes com leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não Hodgkin de células B, dois dos tipos mais agressivos de câncer hematológico. O estudo foca em pacientes que não responderam aos tratamentos convencionais ou que apresentaram recaída da doença, um grupo que costuma ter poucas opções terapêuticas.

Além do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, responsável pela coordenação, o recrutamento também ocorre em outros quatro centros: Hospital das Clínicas da USP, Unicamp, Hospital Sírio-Libanês e BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Os participantes serão acompanhados por, pelo menos, cinco anos para avaliação dos resultados e monitoramento da segurança a longo prazo.

No modelo adotado, as células de defesa são coletadas nos hospitais parceiros e enviadas para Ribeirão Preto, onde passam pela modificação genética que as transforma em células CAR-T. Depois de multiplicadas em laboratório, elas retornam ao centro de origem para serem reinfundidas no paciente.

Atualmente a pesquisa engloba as fases 1 e 2, etapas destinadas a avaliar simultaneamente a segurança e a eficácia do tratamento. Em casos de terapias avançadas voltadas a doenças raras ou em cenários com poucas opções terapêuticas, a aprovação regulatória pode acontecer nesta fase, de forma condicional. Segundo Diego Clé, esse modelo já foi utilizado por terapias CAR-T aprovadas em diferentes países. Produtos como o Kymriah, da Novartis, e o Yescarta, da Kite Pharma, obtiveram registro da Anvisa com base em estudos de fase 1 e 2, com obrigações por parte da farmacêutica de fornecer dados e provas adicionais de eficácia e segurança no longo prazo.

Até o momento, o estudo atingiu cerca de 50% do recrutamento previsto para os pacientes com linfoma. Já no grupo de leucemia, a inclusão ainda está em estágio inicial, com aproximadamente de 15% a 20% dos voluntários. “A análise parcial nesse grupo comprovou uma taxa muito alta de resposta, com uma segurança muito boa. Esse foi o motivo de divulgarmos esses resultados agora”, afirma o pesquisador.

A Anvisa acompanha o desenvolvimento da terapia há vários anos. Foi a agência que autorizou, em 2023, o início do estudo clínico do CARTHEDRALL e, posteriormente, deu aval para o avanço da pesquisa. Com a divulgação dos resultados parciais e a perspectiva de uma futura submissão para registro, o projeto passou a integrar também as discussões do comitê de inovação criado pela agência para acompanhar tecnologias consideradas estratégicas para o país.

Segundo Diego Clé, a iniciativa não reduz as exigências regulatórias, mas pode tornar a tramitação mais ágil. “Eles reúnem todas as áreas da Anvisa para analisar os resultados ao mesmo tempo. Isso abrevia muito o período de análise, mas não pula nenhuma etapa”, afirma.

Infraestrutura de CAR-T

Mesmo que a terapia obtenha aprovação regulatória, o desafio não termina com o registro na Anvisa. Será necessário estruturar uma logística capaz de produzir, distribuir e aplicar o tratamento em diferentes regiões do país. Diferentemente de medicamentos convencionais, o CAR-T exige infraestrutura especializada e profissionais altamente capacitados para reconhecer e manejar efeitos adversos específicos, como a síndrome de liberação de citocinas e complicações neurológicas. O Ministério da Saúde já discute a criação de uma rede nacional de terapia celular, com hospitais habilitados e equipes treinadas. 

Outro desafio crítico será ampliar a capacidade produtiva da terapia. Atualmente, as células são processadas no Núcleo de Terapias Avançadas (Nutera), estrutura construída em Ribeirão Preto em parceria com o Instituto Butantan para centralizar a produção e abastecer os centros participantes da pesquisa. “A estrutura permite escalonar para muito mais tratamentos do que fazemos hoje. Mas, se precisarmos de milhares de tratamentos por ano, será necessário expandir essa capacidade”, diz o pesquisador.

Para o médico, a combinação entre a aprovação regulatória, o ganho de escala na produção e a organização dessa rede assistencial será o fator determinante para que a terapia deixe definitivamente o ambiente de pesquisa e passe a integrar a rotina de assistência do SUS.

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