O Brasil segue crescendo, mas os sinais que emergem dos indicadores mais recentes sugerem que essa expansão está apoiada em bases progressivamente instáveis. Não se trata de um cenário de ruptura iminente, mas de um acúmulo de fragilidades que, se não endereçadas, tornarão o ajuste futuro mais custoso — e menos opcional.
No mercado de trabalho, o CAGED registrou a criação de 767 mil vagas formais até maio de 2026 — número expressivo em termos absolutos, mas que representa uma desaceleração relevante quando comparado ao mesmo período do ano anterior, quando foram gerados pouco mais de um milhão de postos. Uma queda de cerca de 25% no ritmo de geração de emprego formal é um sinal que merece atenção, especialmente em um momento em que o consumo das famílias ainda sustenta boa parte da atividade econômica. Emprego menos vigoroso hoje é renda menos robusta num momento seguinte.
No consumo, os dados já mostram desgaste. A FecomercioSP aponta queda de quase 6% nas vendas do varejo paulista no primeiro quadrimestre do ano, na comparação com igual período de 2025. Outro levantamento da FecomercioSP registrou volume recorde de crédito em atraso no país — indicativo de que parcela crescente das famílias brasileiras já comprometeu sua capacidade de pagamento. Juros elevados, inflação persistente em serviços e endividamento acumulado formam uma combinação que corrói o poder de compra de forma silenciosa e gradual. O varejo sente primeiro; o restante da economia sente depois.
O quadro fiscal completa o diagnóstico. A dívida bruta do governo geral atingiu, segundo dados do Banco Central, 81% do PIB em maio de 2026, ante 75% registrados em maio do ano anterior — o maior patamar desde julho de 2021. Em pouco mais de doze meses, a relação dívida/PIB avançou 6 pontos percentuais, ritmo que reflete a combinação entre expansão do gasto público e custo elevado do serviço da dívida em um ambiente de juros altos. Uma dívida crescente não é, por si só, um problema insuperável — mas limita o espaço para políticas anticíclicas e aumenta a vulnerabilidade do país a choques externos.
O padrão que se desenha é conhecido: crescimento sustentado por estímulos fiscais e consumo de crédito, em um contexto de mercado de trabalho em desaceleração e endividamento público em expansão. Esse modelo tem prazo de validade. A geração de emprego mais fraca reduz a base de sustentação da demanda; o crédito em atraso sinaliza que as famílias chegaram perto do limite; e a dívida pública crescente estreita as margens de manobra do governo. Não é catástrofe — é uma estrutura que exigirá correção de rota no futuro próximo, e quanto mais essa correção for postergada, mais onerosa tende a ser.
O Brasil tem demonstrado capacidade de surpreender positivamente em momentos de pressão, e seria imprudente ignorar essa resiliência. Mas seria igualmente imprudente confundir crescimento com solidez. Os números de 2026 sugerem um país que ainda avança, mas com passos progressivamente mais pesados — e que precisará, mais cedo do que tarde, enfrentar o debate sobre a sustentabilidade do caminho que está percorrendo.
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* Guilherme Dietze é economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP
(**) Crédito da foto: Divulgação