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O que o Congresso Europeu de Fígado mostrou sobre o futuro da hepatologia

Em novo artigo, o médico Gustavo Pereira analisa os estudos mais promissores apresentados no EASL 2026

Com mais de 8.500 participantes de mais de 120 países, tendo entre eles uma presença expressiva de médicos brasileiros, o Congresso Europeu de Fígado (EASL 2026) foi um ponto marcante no futuro da Hepatologia. Sediado na cidade de Barcelona entre os dias 27 e 30 de maio, o congresso científico proporcionou uma visão abrangente dos avanços da área, especialmente em relação à terapêutica, estratégias de rastreio de pacientes em risco para doença hepática avançada e neoplasia hepatobiliar, além de importantes dados que nortearão as políticas de saúde pública.

A edição desse ano destacou progressos importantes em áreas tradicionais da especialidade, como as hepatites virais e a cirrose. Contudo, os avanços mais notáveis ocorreram no manejo da doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica e alcoólica (MetALD – metabolic dysfunction and alcohol-associated liver disease), no tratamento do câncer de fígado (notavelmente o hepatocarcinoma) e no rastreio populacional de doenças hepáticas. O evento ofereceu perspectivas concretas para melhorar o cuidado e os desfechos de pacientes nos próximos anos.

A seguir, os trabalhos mais relevantes, que nos mostraram quais os caminhos a serem seguidos para os próximos anos.

A consolidação da MetALD

MetALD (metabolic dysfunction and alcohol-associated liver disease) é definida por uma doença hepática crônica em pacientes com fatores de risco metabólicos e consumo de álcool acima dos limites da MASLD, mas abaixo dos níveis de ALD (doença hepática alcoólica). Dois estudos avaliaram sua relevância epidemiológica e a segurança e eficácia do uso de análogos de GLP-1 nesta população. O estudo “LiverScreen” incluiu 30.199 adultos acima de 40 anos e

avaliou o impacto da ALD e MetALD na população. Os resultados mostraram que, embora a MetALD represente uma pequena proporção de pacientes de esteatose hepática (6,5%), estes pacientes apresentam risco significativamente maior de fibrose hepática avançada. Entre os encaminhados para avaliação especializada, 39% daqueles com MetALD apresentaram fibrose avançada. Esses achados ressaltam a carga substancial, porém pouco reconhecida, da MetALD na população em geral, destacando a necessidade de identificação precoce e rastreio sistemático em populações gerais.

Uso de agonistas GLP-1 em pacientes com cirrose alcóolica

Um estudo multicêntrico de vida real avaliou 9.293 pacientes com cirrose alcoólica tratados com agonistas de GLP-1 e demonstrou redução significativa de episódios de intoxicação alcoólica, recidiva do consumo alcoólico, assim como de hepatite alcoólica. Observou-se ainda uma redução de progressão da doença, hospitalizações e descompensação da cirrose. Os resultados sugerem que a terapia com GLP-1 pode desempenhar papel adjuvante relevante na prática clínica, reduzindo recidivas do consumo alcoólico e melhorando desfechos de pacientes com cirrose relacionada ao álcool.

Cura funcional da hepatite B

Nas hepatites virais, novos avanços também foram destacados. O oligonucleotídeo antisense Bepirovirsen induziu cura funcional em 20% dos pacientes com Hepatite B crônica em uso de análogos nucleos(t)ideos com HBV-DNA suprimido após 24 semanas de uso (vs. 0% no grupo placebo). Esses dados abrem possibilidades para novas combinações terapêuticas mais eficazes. Outros dois estudos trazem notícias animadoras para o manejo da infecção por vírus B em cenários com recursos limitados.

A combinação de vacinação ao nascer para filhos de mães portadores de infecção pelo HBV e uso materno de Tenofovir, independentemente da carga viral materna (um fator até então necessário e potencialmente limitante às medidas de prevenção) reduziu significativamente a transmissão materno-infantil.

Finalmente, a adoção de testes rápidos Point-of-Care (POC) mostraram-se eficientes para identificação de portadores inativos de HBV sem necessidade de laboratórios complexos, permitindo triagem descentralizada e intervenção imediata. Essa abordagem facilita programas de rastreio em larga escala e pode servir de modelo para regiões de recursos limitados, ampliando o alcance de iniciativas de prevenção e eliminação da doença.

Novas opções de rastreio e tratamento de tumores hepáticos

Um estudo prospectivo com inclusão de 800 pacientes demonstrou que, quando compara a rastreio tradicional com USG de abdômen, um protocolo de RM abreviada com ácido gadoxético (HBP-AMRI) evidenciou maior sensibilidade na detecção de CHC em fase precoce (passível de tratamento curativo) e menor taxa de exames falso-positivos. Estes resultados abrem possibilidades de mudar a prática habitual de rastreio de câncer de fígado na cirrose, com adoção de técnica de maior acurácia.

Tão importante quanto diagnosticar neoplasias em estágio inicial é oferecer a melhor opção terapêutica a estes indivíduos. Por vezes, a presença de comorbidades ou idade avançada faz com que outras opções além ressecção ou transplante devam ser avaliadas. O ensaio clínico STEREO demonstrou que a radioterapia estereotática (SBRT) é comparável à ablação por radiofrequência (RFA) para Carcinoma Hepatocelular ≤3 cm, com taxas de controle local e sobrevida semelhantes, oferecendo alternativa segura para tumores de difícil acesso ao tratamento percutâneo. Essas descobertas reforçam a integração de imagens avançadas na prática clínica, potencializando a detecção precoce e aumentando a chance de tratamento curativo.

Detecção de fibrose hepática no diabetes 2 na atenção primária

O estudo PRELUDE1, com 8.705 pacientes com diabetes tipo 2, avaliou um protocolo com determinação anual do escore Fib-4, seguido de elastografia hepática transitória em pacientes com valores alterados, em serviços de atenção comunitária e hospitalares. A adesão ao protocolo foi maior na comunidade, permitindo maior detecção precoce de fibrose significativa. O estudo destacou que rastreio sistemático em cuidado primário é viável, aumenta a disponibilidade de dados para estratificação de risco e permite encaminhamentos oportunos, prevenindo progressão para doença hepática avançada.

Novos paradigmas e opções terapêuticas na cirrose

Em relação à cirrose hepática, a recompensação da cirrose (definido pela resolução das complicações da cirrose e recuperação da função hepática na ausência de medicamentos) foi amplamente debatido, com o reconhecimento de sua ocorrência em novas condições (por exemplo, em pacientes com colangite biliar primária) e outros cenários além das doenças virais.

Além disso, o estudo EuroTIPS evidenciou que pacientes com cirrose descompensada podem alcançar recompensação após TIPS, com sobrevida livre de transplante hepático significativamente maior, além de redução de eventos de descompensação e menor necessidade de intervenções invasivas, sugerindo impacto direto na qualidade de vida.

Em resumo, o EASL 2026 destacou tendências de medicina preventiva e incorporação de novas tecnologias, com rastreio precoce de doenças hepáticas, tratamentos inovadores e utilização de tecnologias de imagem avançada. Essas iniciativas oferecem perspectivas concretas para melhorar os desfechos clínicos, ampliar a detecção precoce e otimizar a qualidade de vida de pacientes com doenças hepáticas.

Nosso país teve uma participação expressiva com médicos brasileiros no Congresso Europeu de Fígado, seja como palestrantes nas sessões plenárias, em comitês de guidelines ou na apresentação de estudos multicêntricos internacionais. Para todos nós, fica o desafio de incorporar estes ganhos à realidade brasileira. Não faltarão hepatologistas inspirados para executar esta importante e desafiadora tarefa nos mais diferentes contextos.

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