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Oncologia privada entra em nova fase com aposta em centros integrados de câncer

O avanço do câncer no Brasil está redesenhando a estratégia dos principais grupos hospitalares privados. Depois de um período marcado pela consolidação de redes especializadas e pela expansão de clínicas de infusão — que teve a Oncoclínicas como seu principal expoente, mas que hoje passa por um processo de reestruturação financeira e societária —, os hospitais passaram a disputar uma nova fronteira: a criação de centros integrados de câncer.

O novo modelo reúne assistência, diagnóstico, cirurgia, pesquisa clínica, ensino, inovação e desenvolvimento tecnológico em um mesmo ecossistema. Representa, assim, uma nova forma de organização do cuidado, em detrimento de apenas ampliação da capacidade assistencial. Ele faz sentido em um momento em que o tratamento oncológico torna-se mais complexo, com terapias avançadas, testes moleculares e novas tecnologias diagnósticas.

Esse movimento já pode ser observado em diferentes instituições. O Einstein, por exemplo, prepara um hospital dedicado exclusivamente ao câncer no complexo imobiliário Parque Global, em São Paulo, SP, com inauguração prevista para 2027. A unidade reunirá toda a operação de oncologia da instituição em um único complexo, com dez salas cirúrgicas, até 191 leitos, centro médico com 61 consultórios, 39 posições para quimioterapia e infraestrutura voltada à cirurgia robótica, medicina de precisão, pesquisa clínica e formação de profissionais. “O centro médico assistencial ficará integrado ao hospital de oncologia, permitindo uma jornada muito mais coordenada para o paciente, como já acontece na nossa unidade do Morumbi”, afirma Henrique Neves, diretor-geral da organização. Segundo ele, o novo complexo foi projetado para incorporar, desde a inauguração, tecnologias de ponta disponíveis globalmente e acompanhar a rápida evolução do tratamento oncológico.

Já a Rede Mater Dei estruturou sua expansão em torno do Hospital Integrado do Câncer (HIC), inspirado nos grandes cancer centers internacionais e apoiado na integração entre assistência, diagnóstico, tratamento, pronto-socorro oncológico, transplante de medula óssea, pesquisa e equipes multidisciplinares – incluindo ainda plataformas de cirurgia robótica e ferramentas de inteligência artificial voltadas à identificação precoce de tumores. A estratégia reflete o peso crescente da oncologia dentro da operação da rede, que projeta um crescimento de 30% da receita da especialidade em 2026, acima da expansão prevista para o grupo como um todo. Além disso, o plano também deve orientar a expansão da rede para São Paulo, onde o Hospital Mater Dei Santana, previsto para 2028, terá a oncologia entre seus principais pilares.

Outras instituições também avançam nessa frente, com estratégias distintas. Na Rede Américas, a aposta está no fortalecimento da oncologia, mas dentro de seus hospitais gerais. Presente em sete estados e no Distrito Federal, a rede conta com 26 hospitais, mais de 3.800 leitos, 38 unidades oncológicas, cerca de 400 médicos especializados, 50 mil pacientes atendidos por mês, 430 posições de infusão e 14 centros de pesquisa clínica. “Há uma tendência mundial de levar a oncologia para dentro dos hospitais gerais, oferecendo ao paciente um cuidado completo”, afirma Gustavo Fernandes, vice-presidente de Oncologia da Rede Américas. A empresa anunciou recentemente a chegada de Antonio Buzaid como diretor do Centro de Oncologia do Hospital 9 de Julho e Samaritano Higienópolis. O médico oncologista participará da formatação de uma nova unidade premium, em construção na Alameda Jaú, na capital paulista, com previsão de inauguração para início de 2027.

Na BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, a expansão da oncologia combina infraestrutura, pesquisa clínica e incorporação de novas tecnologias. E há a aposta em novos modelos de colaboração, como a CROMA, joint venture criada com o Grupo Fleury e a Atlântica Hospitais para integrar a jornada do paciente oncológico, além da ampliação da infraestrutura e da pesquisa clínica.

As movimentações ocorrem em um cenário de expansão da oncologia. Projeções apontam que o mercado brasileiro deverá crescer a uma taxa média de 7,4% ao ano entre 2026 e 2032, com ampliação da infraestrutura hospitalar, incorporação da medicina de precisão e aumento da demanda por tratamentos especializados. “O crescimento do segmento acompanha uma necessidade real da população e também uma transformação estrutural do próprio setor de saúde”, afirma Gabriela Freitas Chaves, coordenadora da oncologia da Rede Mater Dei nas unidades Contorno e Betim/Contagem.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), serão 781 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028, cerca de 11% acima da projeção anterior.

Dos centros de infusão aos centros integrados de câncer

Durante boa parte da última década, o crescimento da oncologia privada esteve associado à expansão de clínicas especializadas e centros de infusão. Esse modelo continua relevante, mas deixou de ser o principal eixo de investimento dos grandes hospitais. “A oncologia privada passou por uma importante fase de consolidação nos últimos anos. Agora estamos entrando em um momento de amadurecimento do setor, em que a discussão vai além da escala e passa pela integração do cuidado”, avalia Chaves.

A transformação dos centros de câncer também é impulsionada por uma revolução tecnológica. Nos últimos anos, testes genômicos, biomarcadores, inteligência artificial e terapias avançadas passaram a integrar a rotina da oncologia. Neste contexto, os hospitais investiram em formar equipes especializadas e ampliar laboratórios para incorporar essas inovações, em busca de oferecer tratamentos cada vez mais individualizados.

“O futuro da oncologia será cada vez mais baseado em dados, medicina de precisão e tratamentos personalizados”, projeta Henrique Neves, do Einstein. Segundo o executivo, o grande desafio agora é criar estruturas capazes de absorver continuamente os avanços da oncologia na rotina de tratamentos. “Não basta incorporar novas tecnologias. Precisamos criar um ambiente em que assistência, pesquisa, ensino e inovação caminhem juntos para transformar esses dados em melhores resultados para os pacientes.”

Na visão de Neves, os grandes centros oncológicos caminham para um cenário em que robótica, inteligência artificial e medicina de precisão estarão plenamente incorporadas ao dia a dia da assistência. “Queremos oferecer tratamentos verdadeiramente personalizados, a partir das características biológicas de cada tumor e das necessidades de cada paciente”, afirma.

Esse panorama também fortalece a pesquisa clínica como parte da assistência. Na Rede Américas, por exemplo, são mais de 250 estudos clínicos realizados nos seus centros de pesquisa. Na BP, foram conduzidos mais de 120 estudos clínicos multicêntricos globais em 2025 e apoiados 213 projetos independentes de pesquisa. Entre as iniciativas está o Mapa Genoma Brasil, projeto voltado à construção de uma base nacional de dados genômicos para fortalecer o desenvolvimento da medicina de precisão em câncer e doenças cardiovasculares.

Segundo Álvaro Luiz Caetano, diretor executivo de negócios e expansão da BP, a incorporação tecnológica precisa estar acompanhada da produção de evidências capazes de orientar a prática clínica: “A pesquisa clínica tem papel fundamental nesse contexto, pois amplia o acesso a terapias inovadoras e contribui para a geração de evidências que apoiam a tomada de decisão.”

Além de permitir que pacientes tenham acesso precoce a novas terapias, os estudos clínicos aceleram o desenvolvimento da medicina de precisão e a validação de biomarcadores, radiofármacos e terapias celulares. Com isso, os grandes centros oncológicos ampliam seu papel e se consolidam como protagonistas da próxima etapa da oncologia.

O desafio de sustentar a nova oncologia

Se os últimos anos têm como foco a construção de centros integrados e a incorporação acelerada de novas tecnologias, a próxima etapa será garantir a sustentabilidade desse modelo. O envelhecimento da população, o crescimento da incidência de câncer e a chegada contínua de terapias cada vez mais complexas, como imunoterapias, terapias celulares, radiofármacos e tratamentos guiados por biomarcadores, ampliam a pressão sobre hospitais, operadoras e todo o sistema de saúde.

Para Gustavo Fernandes, vice-presidente de Oncologia da Rede Américas, o avanço das terapias transformou o prognóstico dos pacientes, mas também ampliou o desafio econômico da assistência. “Hoje existe uma pressão de custos, mas ela vem acompanhada de um ganho importante para os pacientes. Eles vivem muito mais do que viviam há uma ou duas décadas. O desafio é equilibrar o acesso às novas tecnologias com a sustentabilidade do sistema”, adiciona.

Outro desafio será preparar a força de trabalho para uma oncologia cada vez mais especializada. Isso porque a medicina de precisão exige profissionais capazes de interpretar testes moleculares, incorporar novas tecnologias e atuar em equipes multidisciplinares. A demanda vai além dos oncologistas e inclui patologistas, geneticistas, radiofarmacêuticos, físicos médicos e pesquisadores, tornando a formação continuada e a qualificação profissional fatores estratégicos para os hospitais.

Com esse quadro complexo pela frente, Caetano aponta que a capacidade de sustentar esse novo cenário dependerá cada vez mais da articulação entre hospitais, operadoras, indústria e centros de pesquisa. “Será mandatório evoluir criativamente, por meio de parcerias estratégicas, para termos sucesso no atendimento adequado ao paciente e na sustentabilidade da saúde brasileira”, diz.

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