Caro leitor, hoje convido você a navegar comigo para além do horizonte, rumo à distante Escócia, terra de montanhas cobertas pela névoa, castelos antigos e histórias que o tempo insiste em não deixar morrer. Porque existem narrativas que parecem sobreviver ao tempo, atravessar oceanos e encontrar abrigo na memória dos povos.
Contam os antigos — e as histórias antigas sempre chegam envoltas por certo encanto — que, pelos idos de 1900, aportou em Paranaguá um homem vindo de terras distantes. Chamava-se Robert Albermale, proprietário de uma fábrica de whisky em Glasgow. Talvez tenha chegado como tantos viajantes, carregando sonhos e o olhar curioso de quem atravessara mares inteiros. Mas havia algo naquele escocês que logo despertaria a curiosidade da cidade.
Não demorou para que sua intenção se espalhasse pelas ruas e rodas de conversa: Robert desejava comprar 400 gaiolas.
Paranaguá despertou em espanto. O comentário corria pelas esquinas e ganhava novas versões a cada repetição. Afinal, que destino poderia ter tamanha quantidade de gaiolas? Que extravagância habitava a imaginação daquele homem?
Mas a surpresa ainda estava por vir.
Além das gaiolas, Robert também queria adquirir 400 papagaios. Sim, quatrocentas aves de penas coloridas e vozes inquietas, que partiriam rumo à Escócia atravessando o oceano como passageiros de uma aventura improvável.
E partiram.
Quando o navio deixou o porto, levou consigo homens, aves e um daqueles acontecimentos que parecem pequenos no instante em que acontecem, mas que o tempo transforma em lenda.
Após a longa travessia, aconteceu aquilo que muitos julgariam improvável: os papagaios sobreviveram à viagem. Foi então que Robert iniciou sua curiosa missão. Pacientemente, repetia a mesma frase:
“Bebam Whisky Albermale.”
E pouco a pouco aquelas vozes vindas do outro lado do mar aprenderam a falar. As aves passaram a repetir a mensagem, enchendo o ar escocês com ecos de algo que nascera em terras parnanguaras.
Quando o treinamento terminou, Robert enviou cada papagaio a seus clientes. E assim, em lojas e estabelecimentos, aquelas pequenas criaturas transformaram-se em improváveis mensageiros de uma propaganda singular.
Paranaguá tem dessas coisas. É terra onde a realidade, por vezes, veste-se de poesia. E quem diria que, no início do século XX, partiriam de suas margens 400 papagaios rumo à Escócia? Talvez tenham levado mais que vozes e penas coloridas. Talvez tenham levado um pouco da alma da cidade e a prova silenciosa de que as histórias mais belas sempre encontram um jeito de atravessar o mar.
Periódico Olho da Rua Ano 1907Edição 00015 pag 221.