• Home
  • Nacional
  • Pix, Dólar e retaliação: o que os EUA perdem quando o dinheiro não passa por seus trilhos

Pix, Dólar e retaliação: o que os EUA perdem quando o dinheiro não passa por seus trilhos

Não é correto dizer que os Estados Unidos retaliam o Brasil apenas por causa do Pix. Isso seria simplificação. Mas também é ingenuidade tratar o Pix como detalhe irrelevante.

O que incomoda não é o brasileiro pagar o café por Pix. O que incomoda é o que o Pix representa: um país fora do centro financeiro global criando uma infraestrutura pública, eficiente, barata e massiva para fazer circular dinheiro sem depender integralmente de redes privadas estrangeiras.

A disputa, portanto, não é apenas sobre tecnologia bancária. É sobre poder.

Para entender isso, é preciso voltar ao início: como o dólar se tornou a moeda de referência do comércio mundial. No sistema de Bretton Woods, as moedas estrangeiras passaram a ser fixadas em relação ao dólar, e o dólar era expresso em ouro a US$ 35 por onça. Mas o modelo carregava uma contradição: quanto mais o mundo precisava de dólares, mais os Estados Unidos tinham de emitir dólares. Com o tempo, já não havia ouro suficiente para sustentar essa paridade. Em 1971, Richard Nixon suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro, abrindo caminho para o fim do sistema de câmbio fixo de Bretton Woods.

A partir dali o dólar deixou de ter lastro metálico clássico. Passou a ser sustentado por outra base: liquidez, títulos do Tesouro americano, profundidade dos mercados financeiros, força militar, confiança institucional e capacidade geopolítica.

Isso não significa que o dólar esteja acabando. Não está. Segundo o FMI, no quarto trimestre de 2025, 56,77% das reservas internacionais alocadas ainda estavam em dólar. O euro vinha bem atrás, com 20,25%, e a moeda chinesa representava 1,95%. Portanto, o dólar segue dominante. Mas já não parece intocável. O que está em curso não é uma queda brusca, e sim uma perda lenta de exclusividade.

É nesse cenário que o Pix ganha importância política.

O Pix não substitui o dólar no comércio exterior. Não elimina câmbio, não substitui o sistema financeiro internacional, não liquida importações nem exportações em moeda estrangeira. Essa objeção é correta. Mas o ponto não é o Pix como ferramenta isolada. O ponto é o Pix como modelo de infraestrutura pública de pagamento: eficiente, barata, escalável e soberana.

A disputa contemporânea pelo dinheiro não se limita à moeda usada no contrato. Ela envolve também os trilhos por onde o pagamento circula, os dados gerados por cada transação, os intermediários que cobram pela passagem, as jurisdições que regulam a liquidação e a capacidade de um país fazer sua própria moeda circular com eficiência.

O Brasil criou uma tecnologia pública que entrou na rotina. O Pix já é usado por cerca de 170 milhões de adultos e mais de 20 milhões de empresas; em 2024, movimentou R$ 26,4 trilhões e, até outubro de 2025, já somava R$ 28 trilhões naquele ano, segundo dados divulgados pela Agência Brasil com base no Banco Central. Isso não é mera conveniência bancária. É circulação econômica nacional em escala.

O Pix parece banal porque virou cotidiano. Mas é justamente aí que está sua força. Quando uma infraestrutura pública entra no dia a dia de milhões de pessoas, ela deixa de ser apenas política pública. Passa a ser poder nacional.

A reação americana precisa ser lida com precisão. Em julho de 2025, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos abriu investigação, com base na Seção 301, sobre práticas brasileiras relacionadas a comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, anticorrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. O documento também menciona a suspeita de favorecimento a serviços eletrônicos de pagamento desenvolvidos pelo governo brasileiro. Ou seja: a investigação é ampla, não exclusiva sobre o Pix, mas o setor de pagamentos entrou formalmente no radar americano.

Em 2 de junho de 2026, a Reuters informou que o governo americano propôs tarifa punitiva de 25% sobre diversos produtos brasileiros, após concluir que certas práticas do Brasil seriam desleais em áreas que incluem comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, tarifas preferenciais, etanol e desmatamento ilegal. Portanto, o rigor exige dizer: não há base para afirmar que a tarifa decorre apenas do Pix. Mas há base suficiente para afirmar que os serviços de pagamento eletrônico e, nesse campo, o Pix é o caso brasileiro mais evidente passaram a integrar a pressão comercial americana.

Aqui está a pergunta decisiva: o que os Estados Unidos perdem quando pagamentos deixam de passar por seus trilhos?

Perdem mercado, porque cada transação que migra para uma infraestrutura pública nacional reduz o espaço econômico de bandeiras, processadoras, carteiras digitais, bancos intermediários e empresas privadas de tecnologia financeira. Perdem dados, porque pagamentos revelam hábitos de consumo, fluxos empresariais, redes comerciais, frequência, valores e comportamento econômico. Perdem jurisdição, porque, quando os pagamentos deixam de depender de redes, bancos ou sistemas submetidos direta ou indiretamente à órbita americana, diminui a capacidade de supervisão, pressão e intervenção. E perdem poder de coerção, porque a força do dólar não está apenas em ser moeda de reserva: está também em estruturar pagamentos, financiamento, comércio, sanções e bloqueios.

Esse é o ponto cirúrgico. O problema não é o Pix doméstico, isoladamente. O problema é o precedente. Se o Brasil consegue criar uma infraestrutura pública eficiente para pagamentos internos, outros países podem criar seus próprios sistemas. E, se esses sistemas se tornam interoperáveis, os pagamentos internacionais passam a ter caminhos alternativos.

Quando uma exportação, uma viagem, uma remessa, um contrato ou uma operação entre empresas deixa de exigir passagem automática por bancos correspondentes, moedas fortes tradicionais ou redes submetidas à influência americana, os Estados Unidos não perdem apenas tarifa. Perdem visibilidade, influência, padrão tecnológico, jurisdição e poder de bloqueio.

É por isso que o Pix incomoda mais pelo que anuncia do que pelo que já faz.

A justificativa formal dos Estados Unidos é concorrencial. O argumento é que práticas brasileiras poderiam prejudicar empresas americanas no mercado digital e de meios de pagamento. Mas essa tese tem uma fragilidade evidente: os próprios Estados Unidos lançaram, em 2023, o FedNow, sistema de pagamentos instantâneos operado pelo Federal Reserve. O FedNow não é idêntico ao Pix em desenho, escala ou adoção. Mas demonstra que infraestrutura pública de pagamento instantâneo não é, por si só, uma anomalia brasileira nem uma prática desleal.

O Brasil respondeu sustentando que o Pix não discrimina empresas estrangeiras e que suas práticas não são irrazoáveis, discriminatórias nem restritivas ao comércio dos Estados Unidos. Essa é a defesa correta: o Pix não precisa ser defendido com bravata nacionalista; precisa ser defendido como infraestrutura pública estratégica. Esse debate fica ainda mais sensível quando entra o BRICS.

Não é correto dizer que o BRICS adotou o Pix. Isso seria falso. O que existe é uma agenda de interoperabilidade entre sistemas nacionais de pagamento. Na Declaração de Líderes do BRICS, no Rio de Janeiro, em 6 de julho de 2025, os países determinaram que ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais continuassem as discussões sobre a Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS. O documento também reconheceu avanços do grupo técnico na identificação de caminhos para ampliar a interoperabilidade entre os sistemas de pagamento do bloco, com foco em pagamentos transfronteiriços mais rápidos, baratos, acessíveis, eficientes, transparentes e seguros.  

Esse é o ponto que muda a escala da discussão. O Pix, isoladamente, não ameaça o dólar. Mas o Pix como modelo, somado a sistemas nacionais de pagamento, moedas locais, moedas digitais de bancos centrais e iniciativas do BRICS aponta para uma arquitetura financeira menos dependente dos Estados Unidos.

A discussão não é se o Pix brasileiro vai substituir o dólar. Não vai. A discussão é se, no futuro, pagamentos entre países poderão ser liquidados por infraestruturas nacionais conectadas entre si, usando moedas locais ou moedas digitais oficiais, sem passagem obrigatória pelos canais tradicionais dominados pelo dólar.

Se isso acontecer, o que os Estados Unidos perdem é claro: mercado para suas empresas, dados sobre fluxos econômicos, influência regulatória, poder de sanção e parte da centralidade geopolítica construída em torno do dólar.

Isso não significa o fim do dólar. Significa o fim da ingenuidade.

Soberania, no século XXI, não é apenas território, bandeira, exército ou Constituição. Soberania também é infraestrutura digital, dados, meios de pagamento, regulação tecnológica e capacidade de fazer a própria moeda circular com eficiência.

O Pix é pequeno demais para derrubar o dólar. Mas é grande o suficiente para revelar o que realmente está em disputa: mercado, dados, jurisdição, padrões tecnológicos e poder de coerção financeira.

O que os Estados Unidos temem não é o Pix em si. É a multiplicação de sistemas capazes de provar que a dependência financeira não é destino. É arquitetura. E toda arquitetura pode ser disputada.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Anthropic fecha acordo de US$ 35 bilhões para ampliar capacidade de IA

A Anthropic fechou um acordo de US$ 35 bilhões para contratar capacidade computacional da Lambda,…

Mogi Basquete retorna à Liga Sul-Americana 10 anos após título histórico e vive temporada de conexão com a cidade

O Mogi Basquete está de volta ao cenário internacional. Dez anos após conquistar o título…

XXII Salão Benedicto Calixto: Itanhaém oferece R$ 20 mil em prêmios para artistas visuais

Artistas visuais de todo o Brasil têm uma oportunidade especial de reconhecimento e premiação em…