• Home
  • Opinião
  • Saúde digital e o Brasil do contraste: muita conexão, pouca governança

Saúde digital e o Brasil do contraste: muita conexão, pouca governança

Em novo artigo, Antonio Carlos Silva reflete sobre o panorama assimétrico da saúde digital no país

O debate sobre inteligência artificial na saúde costuma começar pelo futuro: algoritmos que prevêem riscos clínicos, modelos capazes de interpretar exames e assistentes digitais que prometem reduzir a sobrecarga dos profissionais. Essa fronteira avança rapidamente e não deve ser ignorada. Mas, no Brasil, talvez a pergunta atual seja outra: temos hoje governança, processos e capacidade institucional suficientes para transformar dados de saúde em inteligência confiável?

A pesquisa TIC Saúde 2025, do Cetic.br/NIC.br, oferece o retrato de um país marcado por assimetrias. Por um lado, o acesso básico foi universalizado: 99% dos estabelecimentos de saúde têm internet e 92% utilizam sistemas eletrônicos para o registro das informações dos pacientes. À primeira vista, isso indica que a saúde brasileira entrou na era digital.

No entanto, digitalização não equivale a maturidade digital. O relatório aponta avanços na conectividade, mas deficiências na governança. Em média, apenas 42% das unidades possuem políticas formais de segurança da informação, sustentadas principalmente pelo setor privado (54%), enquanto no setor público esse índice é preocupantemente baixo (28%). Além disso, apenas 30% dos estabelecimentos têm planos estruturados para resposta a incidentes de dados.

A fragilidade não se limita às políticas formais, mas também aos processos. Apesar de quase todas as unidades disporem de computadores, 55% dos estabelecimentos de saúde ainda operam em formato híbrido, combinando registros digitais e em papel. Em hospitais maiores, com mais de 50 leitos, a burocracia analógica persiste ainda mais: 80% mantêm fichas físicas.

Como sabemos, não se pode desenvolver inteligência artificial eficaz com dados frágeis. Embora o tema seja amplamente discutido em congressos e painéis, a IA está presente em apenas 18% dos estabelecimentos brasileiros, concentrando-se principalmente em hospitais maiores (31%). Entre os que adotam, 76% utilizam modelos generativos, como o ChatGPT, um aumento significativo em relação ao ano anterior. Devido à facilidade de acesso, essa ferramenta é usada informalmente para aumentar a produtividade, mas, no setor de saúde, esse uso improvisado pode acarretar outros riscos.

O relatório também destaca que as barreiras para adoção da IA variam conforme o perfil institucional. Em hospitais maiores, os custos elevados são o principal obstáculo. Nos serviços de apoio ao diagnóstico, muitos dos quais privados, a justificativa predominante para não adotar a IA é a falta de interesse ou percepção de necessidade. Isso indica que a distância entre a tecnologia disponível e o valor percebido ainda é significativa. Em outras palavras, não basta ter acesso à ferramenta; é preciso entender onde ela realmente agrega valor, quais riscos envolve e qual modelo de governança é adequado.

Um achado contraintuitivo, mas que ilustra o “Brasil dos contrastes” mencionado pelo sociólogo Roger Bastide, foi que, ao contrário do senso comum que associa inovação ao setor privado e atraso ao público, o setor público, estruturado pelo SUS, apresenta desempenho superior em indicadores de interoperabilidade, isto é, na capacidade de compartilhar dados entre diferentes pontos do sistema.

No envio ou recebimento de encaminhamentos eletrônicos de pacientes, 64% dos estabelecimentos públicos utilizam esse recurso, contra 28% no setor privado. A integração à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) alcança 64% dos estabelecimentos públicos e 72% das Unidades Básicas de Saúde.

Surge aqui uma assimetria típica do Brasil de contrastes: onde se esperaria maior agilidade sistêmica, o setor privado ainda demonstra fragmentação; onde se temia apenas atraso, o setor público revela capacidade de integração. O ecossistema privado, ágil na adoção de plataformas, equipamentos e soluções avançadas, frequentemente opera em silos, tratando dados como ilhas isoladas. Já o SUS, mesmo com restrições orçamentárias constantes, dispõe de algo raro em mercados fragmentados: direção institucional e intencionalidade pública para conectar o sistema.

Essa distinção é fundamental. A incorporação de tecnologia não equivale a uma transformação sistêmica. Um país pode dispor de hospitais avançados, centros diagnósticos complexos, soluções digitais sofisticadas e rápida adoção em certos setores, mas ainda assim não conseguir gerar inteligência coletiva em saúde. Quando cada instituição atua isoladamente, a tecnologia aprimora processos locais, porém não melhora o sistema como um todo. Na saúde, a fragmentação gera custos: dificulta a continuidade do cuidado, compromete o planejamento, enfraquece a vigilância epidemiológica e restringe o potencial da inteligência artificial.

Essa tensão expõe a lucidez de Celso Furtado. Para o economista, o subdesenvolvimento não é uma etapa prévia ao desenvolvimento, mas uma estrutura própria, marcada pela formação de uma “estrutura híbrida” — a convivência entre núcleos modernos e bases arcaicas, com a incapacidade de transformar o progresso técnico em bem-estar social amplo. A saúde digital brasileira reflete essa tese. A pressa em adotar tecnologias — agora representadas pela IA — gera a ilusão de um sistema de “primeiro mundo”. Contudo, sem estruturar as bases locais de governança, segurança e interoperabilidade, a tecnologia de ponta inserida em uma base institucional incompleta não produz desenvolvimento; apenas moderniza a precariedade.

Conselhos, lideranças executivas e gestores públicos devem tratar a segurança de dados e o uso responsável da IA como elementos centrais da governança, e não apenas como questões técnicas burocráticas. A próxima fase da saúde digital no Brasil demandará menos foco em ferramentas isoladas e mais arranjos institucionais: processos definidos, dados protegidos, sistemas integrados, profissionais qualificados e cooperação entre os setores público e privado.

*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Tarot do dia: previsão para os 12 signos em 30/08/2026

Segundo o tarot, o domingo pedirá equilíbrio, maturidade e atenção às escolhas. As cartas mostram…

“Presente da Venezuela”: a declaração de Trump sobre o petróleo que vai encher reservas americanas – Gazeta Brasil

Presidente americano afirmou que processo de “enchimento” começará “muito em breve” e classificou o crudo…

Entenda a nova ferramenta da USP que usa desemprego para detectar recessões

O Indicador MADE, desenvolvido por pesquisadores da FEA-USP, acompanha dados de emprego e busca identificar…