Em novo artigo, Renato Porto, da Interfarma, demanda que a Estratégia Nacional de Saúde reconheça P&D como estratégica para o setor
Ao aprovar o Projeto de Lei nº 2.583/2020, que institui a Estratégia Nacional de Saúde do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, o Senado Federal colocou o Brasil diante de uma escolha estratégica: seguir importador de tecnologias, medicamentos e insumos desenvolvidos por outros países, ou ocupar um lugar relevante na geração global de inovação em saúde. Para isso, é fundamental reconhecer que a etapa de maior valor da cadeia não está apenas na produção, mas na capacidade de pesquisar, desenvolver e transformar conhecimento em novas soluções terapêuticas, papel desempenhado pela indústria farmacêutica de pesquisa e inovação. Exigir que uma empresa reúna, ao mesmo tempo, pesquisa, desenvolvimento e produção local para ser considerada estratégica pode limitar a participação de quem mais investe em inovação e reduzir a capacidade do país de atrair conhecimento, tecnologia e investimentos. Sem inovação, não há verdadeira autonomia tecnológica. Há apenas capacidade produtiva.
É preciso afastar uma falsa dicotomia: a de que fortalecer a produção nacional exigiria diminuir o papel da indústria de pesquisa. É o contrário. As moléculas das Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo foram antes desenvolvidas por empresas farmacêuticas de pesquisa. A inovação começa no laboratório, no estudo clínico, no investimento em ciência. Produção sem inovação é estratégia de curto alcance; o Brasil precisa combinar indústria, ciência e cooperação internacional — e a pesquisa é o elo que integra tudo isso.
O país já mostrou que sabe avançar quando cria ambiente favorável à inovação. A Lei nº 14.874/2024, a Lei de Pesquisa Clínica, trouxe segurança jurídica ao setor: segundo estudo da Interfarma com a IQVIA, o Brasil saiu da 18ª para a 12ª posição no ranking global de estudos clínicos. Ainda assim, a defasagem tecnológica aparece no comércio exterior: mesmo nos genéricos, o país não domina a cadeia completa de insumos farmacêuticos ativos, e o déficit da balança de medicamentos saltou de US$ 5,9 bilhões em 2019 para US$ 13,1 bilhões em 2025. Índia, China e Coreia do Sul tratam a inovação como parte da política industrial, investindo também em capacitação técnica e regulação — o tripé que falta ao Brasil.
A indústria farmacêutica de pesquisa é central nesse processo. Segundo a Anvisa, 93% dos ensaios clínicos aprovados em 2025 tiveram cooperação internacional, e oito empresas associadas à Interfarma investiram R$ 1,5 bilhão em pesquisa clínica no país. Esse investimento não substitui a ciência nacional: financia-a e a conecta às redes globais de inovação. O Brasil não precisa escolher entre fortalecer sua ciência e atrair capital internacional — precisa fazer as duas coisas.
É na pesquisa e no desenvolvimento, não na produção, que se concentra o maior valor agregado da cadeia farmacêutica. Por isso a Interfarma defende que a Estratégia Nacional de Saúde reconheça P&D, e não apenas a produção, como o elo mais estratégico do setor. Exigir cumulativamente pesquisa, desenvolvimento e produção para o reconhecimento como empresa estratégica inverte essa hierarquia e reduz a atratividade do Brasil para investimentos de longo prazo.
O país já viveu essa miopia antes: a indústria de transformação recuou de 35,9% para 13,7% do PIB brasileiro em quatro décadas, enquanto a China ampliou sua fatia da produção industrial mundial para 32%. Não é razoável repetir, na saúde, o erro de colocar a produção acima da pesquisa.
A soberania em saúde não nasce na fábrica. Nasce no laboratório. Não reconhecer como Empresa Estratégica da Saúde quem pesquisa e inova no Brasil, independentemente de produzir localmente, compromete o ciclo virtuoso da inovação — e, com ele, o desenvolvimento do país. Até quando o Brasil vai confundir fabricar com inovar?
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