Uma pesquisa conduzida pela Laços Saúde com 309 idosos participantes de programas assistenciais, em maio de 2026, revelou um dado que desmonta um dos maiores mitos do envelhecimento contemporâneo: o idoso brasileiro não está desconectado. Ele está online, curioso, disposto a aprender — e pronto para consumir saúde, relacionamento e bem-estar por meio da tecnologia.
O estudo mostra um retrato muito diferente daquele ainda predominante em parte do mercado, das empresas de tecnologia e até do próprio setor de saúde suplementar: o da população idosa como avessa ao digital.
Os dados apontam exatamente na direção oposta. Mais de 53% dos entrevistados, com media de idade de 75 anos, afirmaram saber utilizar diferentes aplicativos, enquanto apenas 21,7% declararam não saber usar tecnologia. Além disso, 73% usam dispositivos digitais pelo menos algumas vezes por semana — e 26,9% utilizam tecnologia várias vezes ao dia.
Não se trata de um nicho residual. Trata-se de uma mudança estrutural. O Brasil envelhece rapidamente. E esse envelhecimento ocorre em uma geração que viveu a popularização do celular, da internet móvel, do WhatsApp e das redes sociais. A imagem do idoso totalmente excluído do universo digital começa a se tornar tão ultrapassada quanto o antigo “manual do videocassete”.
O preconceito digital contra os idosos
Existe hoje uma espécie de “etarismo tecnológico” silencioso no mercado. Empresas frequentemente desenvolvem produtos digitais assumindo que pessoas acima de 60 anos terão baixa adesão, pouca capacidade de navegação ou resistência natural à inovação. Isso influencia desde design de aplicativos até estratégias de comunicação, onboarding e investimento.
Mas a pesquisa da Laços mostra que o principal obstáculo não é resistência — é acolhimento. Quando perguntados sobre seus sentimentos em relação à tecnologia, os idosos demonstraram predominantemente curiosidade (35,6%) e entusiasmo (34,6%). Medo e desinteresse apareceram em patamares próximos de apenas 10%.
O dado talvez seja um dos mais importantes do estudo. Ele revela que a barreira não é emocional nem cognitiva. A barreira é operacional. Em outras palavras: o problema não é “não querer usar”. O problema é “não ter sido adequadamente incluído”.
É uma diferença enorme — e com profundas implicações econômicas e sociais.
O WhatsApp virou infraestrutura de saúde
Outro dado emblemático da pesquisa é o protagonismo absoluto do WhatsApp. Mais de 61% dos idosos afirmaram preferir interagir com a equipe de saúde por esse canal, superando amplamente atendimento presencial e telemedicina tradicional.
Isso revela uma transformação importante no cuidado em saúde. O WhatsApp deixou de ser apenas aplicativo de mensagens. Para boa parte da população 60+, tornou-se:
- Canal de cuidado;
- Ferramenta de vínculo;
- Espaço de orientação;
- Meio de socialização;
- Plataforma de acesso à saúde.
O celular virou extensão do cuidado contínuo. E isso muda completamente a lógica assistencial tradicional.
Historicamente, o sistema de saúde foi desenhado para funcionar em torno da doença aguda e do encontro físico: hospital, consultório, emergência. Mas o envelhecimento populacional exige outro modelo — longitudinal, relacional e cotidiano. A tecnologia, quando bem utilizada, permite exatamente isso.
Tecnologia não isola idosos. O isolamento já existe
Existe ainda uma narrativa recorrente de que a tecnologia “afasta” os idosos do convívio humano. A pesquisa sugere o contrário. Grande parte dos entrevistados vive acompanhada (83%), mas há uma parcela relevante de viúvos (27,8%).
Esse dado é central. Porque solidão e isolamento social são hoje considerados fatores de risco tão relevantes para saúde quanto hipertensão, sedentarismo e tabagismo em populações idosas. Diversos estudos internacionais já associam isolamento social a:
- Maior risco de depressão;
- Pior desempenho cognitivo;
- Aumento de hospitalizações;
- Pior adesão terapêutica;
- Maior mortalidade.
Nesse contexto, plataformas digitais podem funcionar como mecanismos de proteção social. Na pesquisa da Laços, entre os conteúdos mais valorizados aparecem:
- Atividade física;
- Saúde mental;
- Jogos cognitivos;
- Música;
- Leitura;
- Filmes;
- Socialização;
- Pilates;
- Teleorientação.
Ou seja: o interesse não está centrado apenas em “tecnologia”. Está centrado em pertencimento, estímulo cognitivo, rotina e conexão humana mediada digitalmente. A tecnologia passa a ser meio — não fim.
O maior erro do mercado: confundir baixa ativação com baixa demanda
Talvez o dado mais revelador do estudo esteja em outro ponto. A necessidade de “apresentação” das tecnologias que irão utilizar. 60,5% dos idosos diz necessitar de alguém para indicá-los alguma plataforma ou app, ao invés de buscar sozinho alguma indicação.
Isso mostra que o baixo uso de plataformas digitais entre idosos frequentemente não decorre de rejeição. Decorre de:
- Onboarding insuficiente;
- Comunicação inadequada;
- Excesso de complexidade;
- Ausência de suporte leve;
- Falta de criação de hábito.
Em outras palavras: muitos produtos falham não porque idosos “não usam”, mas porque foram desenhados sem considerar como idosos entram no ambiente digital.
A geração 60+ não precisa necessariamente de aplicativos simplificados ao extremo. Precisa de:
- Acolhimento;
- Repetição;
- Apoio humano;
- Rotinas previsíveis;
- Comunicação clara;
- Ativação assistida.
A pesquisa mostra inclusive que mais de 50% querem aprender mais sobre tecnologia. Há aqui um mercado gigantesco ainda subestimado: o da alfabetização digital sênior.
A economia prateada será digital — ou não será
O debate sobre longevidade frequentemente fica restrito à saúde assistencial ou previdência. Mas o estudo aponta uma dimensão econômica muito mais ampla.
O envelhecimento da população brasileira criará uma nova camada de consumidores digitais maduros:
- Com mais tempo disponível;
- Forte necessidade de serviços;
- Demanda crescente por saúde;
- Busca por socialização;
- Interesse em aprendizado;
- Necessidade de segurança e confiança.
A chamada “economia prateada” não será apenas presencial. Ela será híbrida. Especialmente porque o envelhecimento brasileiro ocorre junto à consolidação da cultura mobile. Diferentemente de gerações anteriores, os idosos atuais já envelhecem dentro do ambiente digital.
O desafio deixa de ser acesso à internet. Passa a ser experiência de uso.
Saúde digital para idosos exige humanidade, não apenas software
A principal lição da pesquisa talvez seja esta: saúde digital para idosos não é um problema tecnológico. É um problema relacional.
Os participantes demonstram abertura, curiosidade e interesse. O que eles pedem não é menos tecnologia. É mais mediação humana. Isso explica por que iniciativas simples tendem a funcionar melhor:
- Vídeos curtos;
- Lembretes por WhatsApp;
- Suporte telefônico;
- Tutoriais simples;
- Agendas fixas;
- Familiares envolvidos;
- Linguagem acessível;
- Presença humana constante.
Curiosamente, a tecnologia mais poderosa para o envelhecimento saudável talvez seja algo muito mais simples: um celular tocando para lembrar alguém de entrar numa aula, conversar, se exercitar ou sentir que ainda pertence a uma comunidade.
E, no envelhecimento, pertencimento também é cuidado.
Martha Regina de Oliveira é CEO; Cristiana Vidigal Lopes é head de Produtos; Luciene Carvalho Mendes Giusti é Diretora de Marketing e Relacionamento com o mercado; Sthefany Garcia de Lima é head de Engajamento de pacientes; e Fabio Favero é Marketing do Grupo Laços.
*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.