reflexões sobre a sociedade do cansaço

Nunca produzimos tanto – e nunca nos sentimos tão esgotados. Vivemos em uma engrenagem que transforma cada minuto em meta, cada gesto em desempenho, cada pausa em culpa. É o retrato perfeito da “sociedade do cansaço”, conceito de Byung-Chul Han que descreve com precisão o espírito do nosso tempo.

Somos convocados diariamente a ser gestores de nós mesmos: administradores do relógio, fiscais da produtividade, vigilantes das próprias falhas. Ao contrário das antigas sociedades disciplinares, em que o “dever” vinha de fora, hoje o imperativo vem de dentro. E, quando falhamos, não responsabilizamos o sistema – responsabilizamos a nós mesmos. Essa é a lógica da autoexploração: um processo silencioso, quase imperceptível, no qual o algoz e a vítima habitam o mesmo corpo.

A sociedade do desempenho promete autonomia, mas entrega ansiedade. Promete liberdade, mas entrega culpa. Promete sucesso, mas cobra esgotamento

No meio dessa avalanche de tarefas, estímulos e expectativas, vamos nos distanciando de tudo que nos humaniza: o silêncio, a pausa, o ócio criativo, o simples direito de existir sem produzir. Desaprendemos a descansar – e, com isso, desaprendemos a sentir.

A sociedade do desempenho promete autonomia, mas entrega ansiedade. Promete liberdade, mas entrega culpa. Promete sucesso, mas cobra esgotamento.

Romper com esse ciclo não é um gesto de preguiça – é um ato de coragem. Coragem de dizer: “não dou conta”, “não sou infinito”, “não preciso provar nada hoje”. Coragem de se permitir parar.

A pausa, longe de ser fracasso, é um gesto político. É resistência contra uma cultura que idolatra a produtividade e invisibiliza o humano. É no intervalo que a criatividade floresce, que a sensibilidade retorna, que o corpo e a alma conseguem respirar. Precisamos recuperar o direito ao tempo: tempo que não serve a nenhum propósito utilitário – e, talvez por isso mesmo, sirva para tudo que realmente importa.

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Porque, apesar de tentarem nos convencer do contrário, não somos máquinas. Como diz o ditado, “não apresse o rio, ele corre sozinho”. Somos jardins. E jardins não florescem na pressa. Para florir, dependem do adubo, da estação, do calor, da chuva, de vários elementos…

Talvez seja hora de desacelerar – não para viver menos, mas para viver melhor. Não para produzir pouco, mas para produzir sentido. Não para abandonar o mundo, mas para reencontrar a nós mesmos.

Quando paramos, o mundo não desmorona. Ele apenas muda de ritmo. E, nesse novo compasso, podemos enfim redescobrir aquilo que fomos perdendo pelo caminho: nossa humanidade.

Toni Reis, doutor em Educação, é diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+; presidente da ABRAFH (Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas), diretor financeiro da Rede Gay Latino, diretor executivo do Grupo Dignidade.

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